Design, Arte, Tecnologia e Cultura

Bom, como percebem, estamos de volta ao Brasil. E cheios de novidades pra contar.

Como terminei no último post, eu, Feliz e Lucyano fomos para a Argentina uma semana antes do Trimarchi, pra aproveitar e conhecer um pouco de Buenos Aires. Mas chegamos em Mar del Plata na quarta, pra participar do Pictoplasma na quinta.

Mar del Plata fica a umas 6 horas de Buenos Aires. É uma cidade costeira simpática, e logo aprendemos a nos virar por lá, sendo arquitetura urbana bem regular e simples. E o taxi é super barato também !

Pictoplasma

O Pictoplasma é uma organização de origem alemã, que incentiva e a arte e o design de personagens. Desde 1999 eles têm promovido conferências, publicado livros e mantido um arquivo amplo de personagens de designers e artistas do mundo todo. Nesse caso, o Pictoplasma foi um evento à parte, mas que aproveitou o Trimarchi pelo público que ele trouxe para a cidade. Foi um dia inteiro de evento, que terminou numa festa de máscaras, onde o povo recebia uma máscara em branco na entrada, a decorava com canetas e tesoura, e só entrava com ela.

Pictoplasma
Pictoplasma

Primeiro houve uma apresentação dos fundadores, mostrando o que tem acontecido no cenário geral de character design.

Depois, uma exibição de curtas, todos os quais podem ser encontrados nesse PDF.

Em seguida, os palestrantes foram Juliana Pedemonte – Colorblok, Gangpol & Mit, Motomichi Nakamura, Studio AKA e Shobo Shobo.

A argentina Juliana Pedemonte faz personagens super coloridos, e que têm uma aparência bem única. Seu studio Colorblok é quem leva o crédito de trabalhos de ilustração e motion para MTV, VH1, Zune, Nickelodeon e outros.

Gangpol & Mit
Gangpol & Mit

Gangpol & Mit é a dupla francesa formada por Guillaume Castagne e Sylvain Quément. Eles trabalham juntos, um criando a música e o outro, os personagens e os clipes para ilustrar. Seu estilo é um tipo de Space Age pop, com músicas lo-fi e gráficos simples, compostos por formas básicas e cores vivas. Os caras pareciam muito prepotentes, com piadas sem-graça e muito esforço pra um trabalho que, na minha opinião, é meio bobo e até feio. Mas como hoje em dia o feio vende, parabéns pra eles.

Motomichi é um japa que desenha monstros. A particularidade do seu trabalho é o uso mínimo de cores: Preto, branco e vermelho. Seu trabalho gráfico se extendeu para criar toys, produtos e videografismo, quando ele se transforma em VJ. Ele foi responsável pelo cartaz do Pictoplasma.

Studio AKA é um estúdio londrino de animação, dirigido por Marc Craste. Eles já fizeram trabalhos para BBC, Lloyds Bank, Compaq, Orange, e também algumas curta-metragens. Eu me arrependi de ter perdido a palestra, mas aqui vai o reel deles, e um curta que passou lá também, que pra mim foi o melhor:

ShoboShobo
ShoboShobo

ShoboShobo (Mehdi Hercberg) é um francês muito louco que faz o que gosta. Sua palestra foi uma mostra dos seus projetos, instalações, música e desenhos. No geral, seu trabalho é bem perturbado, e não conseguiu me atrair muito. Mais um exemplo de que o tosco vende.

Do lado de fora do auditório haviam painéis tipográficos super interessantes, de tipógrafos latino-americanos.

Enfim, muitas coisas boas e algumas coisas ruins popularam o auditório do Pictoplasma. Foi um showcase de trabalhos de arte contemporânea e design, então a diferença de opiniões é sempre presente. É como ficar o dia todo assistindo aquelas vinhetas da MTV.

TriMarchi DG

Sexta começou o TMDG. Junto com ele chegaram nossos amigos Caligraffiteiros Nuno e Uno, e outros da patota. Uno já deu uma boa varrida no que ocorreu nos 3 dias de evento, então eu posso destacar as melhores partes que achei.

O pessoal do estúdio Mopa, de Brasília, deu um show. Mostraram sua ideologia de trabalho e alguns projetos que realizaram desde o material do nDesign de Brasília. Em 2 anos eles já fizeram trabalhos para ComputerArts, Fiat, Super Interessante, e recentemente foram convidados pela Johnson & Johnson para consultoria de redesenho da linha Sundown. Além do talento e bom gosto, os valores e os ideais do grupo diante qualquer trabalho é o que garante o sucesso. Isso é visível até no próprio projeto interno de apresentar seu portfólio: Fotografias subaquáticas e light painting, para representar os projetos como sendo frutos do fantástico mundo de Mopa.

Estudio Mopa
Estudio Mopa

Psyop foi outro destaque nas palestras. A dupla de representantes mostrou seu método de desenvolvimento de conceitos para projetos de motion graphics. Campanhas como a da Converse, Coca-Cola, Century 21 e Guinness começam com boards conceituais que representam o sentido geral do vídeo. Assim o cliente pode ter uma idéia ampla do que vai ser feito, e que tipo de estética terá. E as modificações são feitas de modo seguro, evitando re-renders significativos que atrasam e bitolam o processo. Foram mostrados também projetos internos e outros que não foram completados, e ficaram só nos conceitos.

Marian Bantjes foi uma das minhas grandes espectativas do Trimarchi. E valeu a espera. Seu bom-humor fez da palestra um rico aprendizado sobre o que acontece quando encontramos aquilo que gostamos de fazer, e fazemos para ganhar a vida. Isso apoiado pelas suas engenhosas peças tipográficas e linhas rebuscadas para Stefan Sagmeister, Saks Fifth Ave., Typecon e Creative Review. Só achei meio desnecessário e cansativo ela ter lido os 16 textos que desenhou para o Creative Review. E nunca esqueceremos daquela tosse que ela arrumou no final ! Coitada.

Joshua Davis
Joshua Davis

Mas o que valeu mesmo, como Uno e Nuno já disseram aí, foi o Joshua Davis. Até então todo mundo foi bem sério com suas conversas. Até o momento que chega esse maluco todo tatuado, brincando com a luz spot, quebrando microfones e tomando muito Red Bull. E o chaos no seu trabalho o justifica. Joshua é como um Pollock da atualidade – do mesmo jeito que Jackson Pollock controlava seu pincel, Joshua controla seus parâmetros no Actionscript. E do mesmo jeito que a tinta de Pollock caía sobre a tela, as formas de Joshua aparecem na tela, e nenhuma peça é igual à outra. Com essa multidisciplinaridade ele encontrou seu estilo e o vendeu para Nokia, Motorola, BMW, e se tornou uma celebridade do design digital.

E além da palhaçada e das risadas, vieram as lições. Uma que não sai da cabeça é

É difícil ver o seu ambiente, quando você está no seu ambiente. Procure o visível invisível.

Joshua contou como que ele foi chamado inúmeras vezes para palestrar no Japão, sobre trabalhos que ele tinha feito lá. E as pessoas aplaudiam sempre. A verdade é que ele estava sempre mostrando trabalhos feitos com referências e conteúdo japoneses, que eles não viam porque eram elementos do cotidiano. E é por isso que a melhor coisa é agente voltar com o olhar para a infância, quando vemos tudo pela primeira vez. Para a época em que somos os mais criativos, porque tudo é novo. David Carson dizia a mesma coisa, quando justificava suas constantes viagens pelo mundo. Quando tudo é novo, não vemos as limitações. Aí criamos.

Conclusão

Escrevi isso em outro lugar, mas num faz mal. Copyright num vale pra mim mesmo:

Achei excelente o evento. Fui com o olhar comparativo aos Ndesigns e Rdesigns, e realmente o Trimarchi foi uma experiência bem única.

Muito bom estar em outro ambiente, com muita gente que um dia vai estar lá palestrando e mostrando seu trabalho também. Muito bom escutar as lições dos melhores – sucesso do Mopa, palavras da Marian e do Joshua. Muito bom conviver com o resto do mercado em um só lugar, e ver as artes que o pessoal está fazendo.

Ruim ? Não lembro de muitas coisas ruins. Mas acho que a pior foi o fato do EBoy não ter ido. Tava esperando o que os caras iam mostrar, desde que fiquei sabendo do Trimarchi. Espero que ano que vêm dê pra acontecer.

No geral, não tem como esses eventos serem ruins. Encontros são sempre essenciais, em qualquer ramo profissional. Todo mundo tem que conviver com a sua comunidade, pra saber onde está e quem faz o quê. Uma coisa é você receber feeds do mundo todo, mostrando o que anda sendo feito por aí. Outra é viajar pra longe e ficar vários dias com 5000 pessoas que compartilham o interesse e o amor pelo design e pela arte. E eu não sei o que as pessoas que não participam de encontros assim estão achando que vão conseguir na sua jornada de sucesso.

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